António Colaço

Uma imagem de criança <br>que ficou para sempre

António Colaço é militante do Partido de longa data. Jornalista reformado, foi chefe de redacção adjunto do Diário Popular até ao fecho daquele órgão de informação.
No já longínquo ano de 1937, ainda criança, presenciou a prisão de um comunista na rua onde morava em Lisboa, acontecimento que marcou toda a sua vida. Anos mais tarde soube tratar-se de um tipógrafo clandestino do Avante!.
Ao longo dos anos tentou saber o nome do homem que viu ser preso, mas nunca conseguiu. Os pseudónimos de clandestinidade dificultaram a identificação do prisioneiro. Um pequeno episódio da história heróica do Avante!.

Soubemos que guardas na memória um episódio da existência do Avante! pouco conhecido. Queres contar-nos o que se passou?

Na verdade, é uma pequena história com mais significado para mim próprio do que para o próprio jornal, que teve outras bem mais importantes, talvez. Foi há 69 anos, por volta de 1937, andava eu na terceira classe da instrução primária. Um dia, de manhã, estava a vestir-me para ir para a escola e ouviu-se um alarido na rua. Fui à janela com a minha mãe e vimos um homem a ser arrastado por dois indivíduos que o levavam suspenso pelos sovacos, os pés de rojo pelo chão, enquanto ele gritava a plenos pulmões: «Vão-me matar, vão-me matar! Mas viva o comunismo!» Atrás, seguia outro indivíduo de pistola em punho, que olhava ameaçadoramente para as janelas onde tinham assomado pessoas atraídas pela voz do preso.

E onde foi isso?

Isto passou-se na Rua da Beneficência, bem perto, a cerca de cem metros, do local onde hoje está a sede do nosso Partido. O bairro do Rego, também conhecido como o Bairro de Santos, era, naquele tempo, uma zona operária. Havia ali uma fábrica de artefactos de borracha, uma serração de madeiras e oficinas várias à beira do cais ferroviário, ao tempo com grande movimento de mercadorias, além do nauseabundo Bairro das Minhocas, extenso aglomerado de barracas de lata, onde viviam, se não erro, milhares de pessoas em condições verdadeiramente degradantes. A minha casa, um terceiro andar do número 146 era quase defronte de uma modesta escola particular com o significativo nome de Escola Operária de Palma e Arredores…

Alguém reagiu à prisão desse militante comunista?

Hoje sabemos que houve outras prisões de camaradas que, ao serem detidos na rua, reagiam em alta gritaria e, por vezes, conseguiam auxílio popular para fugirem. Mas, neste caso, não. Sabes, era muito cedo, havia ainda muito pouca gente na rua e passou-se tudo muito rapidamente. E, depois, aquela pistola virada para as janelas deve ter assustado…

E a seguir, o que se passou?

A seguir só tem a ver comigo. Quando desci à rua para ir para a escola, a da Câmara, um pouco mais abaixo, já havia pessoas a comentarem o insólito acontecimento. O preso tinha sido metido à força num automóvel que arrancou a toda a pressa. Ouvi alguém dizer que se tratava de um morador numa fila de casas térreas ali existentes e que, anos depois, viriam a ser demolidas, dando lugar aos prédios agora existentes no local.
Nesse tempo, o meu pai, motorista, andava com um camião dos Transportes Grandella e lavar bidões de gasolina de Lisboa para Sevilha, com destino aos rebeldes de Franco. Quando vinha a casa contava coisas terríveis dos massacres praticados pelos fascistas sobre os rojos e a população em geral, tendo, inclusive, ajudado alguns a refugiar-se em Portugal…
Foi numa dessas suas vindas a casa que, a propósito daquele grito angustiado que ouvira na rua «Vão-me matar, vão-me matar! Mas viva o comunismo» que o meu pai me explicou, de forma simples mas inesquecível, o que aquilo significava. Assim, depois do exame da quarta classe e da admissão ao liceu, quando na oficina de mecânica de automóveis para onde fui trabalhar durante um ano, ouvia os operários a falar com admiração do «Zé dos Bigodes», eu já compreendia do que eles falavam… Tanto mais que, com a Guerra Mundial já em curso, o meu pai e a minha mãe ouviam à noite, com grande atenção e muito cuidado, os noticiários da Rádio Moscovo e da BBC, deixando-me ouvir também – mas avisando-me dos perigos de tais «atrevimentos»…

Voltando ao Avante!

Pois, quanto ao Avante!… Nos anos 50, com outros jovens do MUD Juvenil, a que tinha aderido por intermédio do Ilídio Esteves, frequentava diariamente a Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, nas escadinhas do Duque, e tive a oportunidade de conviver com a Maria Machado, que tinha acabado de sair da prisão, muito combalida. Um dia falei-lhe do episódio na Rua da Beneficência e ela disse-me: «Eu estava lá, nessa tipografia do Avante! e o camarada que estava comigo deixou-se prender para eu poder fugir pelas traseiras com os materiais mais importantes.» Foi assim que fiquei a saber que, também naquele bairro de gente pobre, houve mais casas clandestinas do Partido ao longo dos anos da ditadura.

Tudo isso marcou a tua vida, calculo…

Sim, foi a partir dessa altura que comecei a ler regularmente o nosso Avante!, ainda clandestino, e a compreender melhor e a ser melhor informado acerca da luta dos pobres contra os exploradores, a luta pela emancipação política da maioria do povo, sem voz contra os minoritários donos de tudo, até das consciências alheias.
Tudo isso eu tenho acompanhado ao longo dos anos, e já levo 78 anos contados, porque o Avante! nunca deixou de ser uma voz determinante na luta de classes. Se não houvesse luta de classes o Avante! já teria deixado de existir, tinham secado as suas raízes, que estão no povo como as árvores estão implantadas na terra que lhes dá vida. É por isso que o Avante! é indestrutível.
Ele é o sangue, a seiva, a luz da luta dos humilhados…


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A história do Avante! faz-se de pequenas e grandes histórias, de leitores e de jornalistas, de vendedores e de observadores. É um percurso longo, de 75 anos, mas acima de tudo sólido, como mostram os dois episódios que contamos neste número. Juntamos passado e presente e na soma encontramos indícios do futuro do nosso jornal.

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